quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Criancinhas

Ele olhou ao redor da cozinha imerso numa névoa de temor e descrença, a presença inconfundível de sua mãe emanando da chaleira em forma de abacate e da torradeira; do papel de parede que descascava e tinha a ilustração de várias ervas e temperos, os nomes escritos prestimosamente abaixo; dos vidros marrons de remédio alinhados como soldadinhos no peitoril da janela, os rótulos com a prescrição todos voltados para fora. Não parecia possível que ela não fosse voltar para casa. O mero pensamento fazia com que se sentisse tonto e em perigo, como se estivesse de pé numa sacada alta sem parapeito, olhando diretamente para baixo, para um estacionamento vazio.


–Por favor – ele disse, voltando seu olhar para o teto, na direção de um Deus no qual considerava sua mãe uma tola por acreditar. – Não a deixe morrer, porra.

- PERROTTA, Tom - Criancinhas (Little children - 2004)

A partir de 2008, o dia de finados passa a ter algum sentido na minha vida. Nunca imaginei-me fazendo alguma coisa nesse dia. - Sinceramente, quem gostaria? - Sempre estive bastante forte, apesar de alterado, desde que mainha faleceu. Mas sabe aqueles clicks que dão no ser-humano? Aconteceu comigo.
Nessas últimas semanas, parece mais difícil aceitar a perda. Você está na sua mas de repente um ardor bate no seu nariz e mareja seus olhos todos. Tão de súbito como chegou, se vai. É só uma cutucada de dor, mas vem de tempo em tempo. Ou um pensamento constante de "Putaqueopariu, mundo justo é o caralho", que por sinal virou tema de uma agradável conversa de bar no Jacaré, com colegas de trabalho. Ou aquela imbecil sensação de que tudo vai passar, da grande viagem que um dia acaba e ela volta pra casa, que tão toscamente nos engana, uma idéia que de tão estúpida pode dar certo, aquilo que não tem a menor pretensão de acontecer mas que todo mundo torce a favor...
Mas "foi Deus quem quis assim", e isso devia ser o suficiente pra pessoa aceitar.

Alguém já parou pra pensar no que - olha só que antagônico - diabos essa frase significa? Que tipo de plano perfeito é esse que envolve matar a minha mãe? Pelo amor dele, nunca mais digam isso pra mim sem realmente acreditar que a morte da minha mãe foi uma coisa boa.

E é num misto de revolta e saudade que escrevo essas palavras. Uma mistura que ditou meus passos nesse último mês, e que provavelmente ditará meu caminhar por alguns outros tantos dias a mais.

2008 foi o ano mais bizarro em que já vivi.

3 comentários:

Aretha Paiva disse...

As pessoas falam isso Caio, pq tb estão revoltadas e pq não sabem o que dizer, precisam de conforto e precisam lhe confortar. É duro e é revoltante, mas é a vida. :*

Sofia disse...

Eu podia ter escrito muitas partes desse texto. Eu sou do tipo que acha que ela tá viajando, porque parece inacreditável demais achar que ela nunca mais vai voltar.

Não me lembrava mais dessa parte de Criancinhas... Quando li, nunca imaginei que viveria isso.

Deus não quis assim, porque é injusto demais.

E obrigada por fazer com que eu sentisse que estava tomando café com ela de novo. De um jeito muito troncho, mas eu senti isso, e achei lindo demais. Obrigada demais.

2008 foi o ano mais triste em que já vivi.

Colina de Prata disse...

É Caio, é foda mesmo, antagônico mesmo. Da forma como veja não há vontade pessoal dEle nisso tudo, não do tipo: - Essa pessoa eu quero hoje.

Creio que está em sua permissividade mas que seja fruto de nós mesmos tal mortalidade, uma parte de mim quer crer que temos que superar essa mortalidade de alguma forma ou evoluir com ela.

Outra parte de mim gostaria de acreditar que Deus é mesmo um velho barbudo olhando pra baixo e dizendo: - Mais um chorando, esse não era meu plano original... ferraram com tudo... agora vou ver o que dá pra fazer com o que temos ainda...

Mas a verdade é que nada sequer chega perto da dor que sentes, aliás, é também verdadeiro e antagônico que a dor seja testemunha legítima do amor, sim, tua dor tão grande só existe porque está diante de um amor tão grande; do contrário, se amor fosse menor, a dor seria menor, mas não é... :(

Abraços,


Mu.